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Diário de Campo

Um blog que junta o entusiasmo pela fotografia com o fascínio pela Natureza. O objetivo é continuar a aprender através da observação e partilha.

Diário de Campo

Um blog que junta o entusiasmo pela fotografia com o fascínio pela Natureza. O objetivo é continuar a aprender através da observação e partilha.

Para fazer as coisas um pouco diferentes desta vez, dispenso a fotografia e começo com literatura:

"– O plano é o seguinte: agora vamos até Gvozdevo. No pântano de Gvozdevo há narcejas por todos os lados e para lá de Gvozdevo há uns belos pântanos de galinholas, e também aparecem narcejas. (...) – Há pouco espaço para três. Eu fico aqui – disse Lévin, esperando que eles não encontrassem nada além de alguns abibes que os cães levantaram e que, oscilando no voo, choravam lamentosamente por sobre o pântano. (...) Lévin ficou junto ao charabã e olhava com inveja os caçadores. Estes percorreram todo o pântano. Exceto algumas galinhas-d'água e abibes, um dos quais foi morto por Vassenka, não havia nada no pântano."

As passagens acima são retiradas de Anna Karénina (edição da Relógio D'Água, traduzida por António Pescada), que estou a ler desde junho de 2020. É um calhamaço, mas se refiro aqui a data em que iniciei a sua leitura é mais para indicar o quanto estou a gostar de o ler. Dou por mim a avançar apenas algumas páginas por semana, e a tentar prolongar um pouco mais, tanto quanto possível, a presença no universo descrito por Tolstoi da nobreza russa do século XIX.

Há algumas semanas, o livro ganhou mais uma camada de interesse para mim, com a deslocação da ação para o campo, e a referência a algumas aves no decorrer de uma caçada. Pondo de parte os aspetos da caça, que não me apela a qualquer nível (mesmo o ficcional), achei interessante chegar a esta parte do livro numa altura em que estou cada vez mais empenhado na observação e fotografia da Natureza.

Das quatro espécies referidas naqueles excertos, só conhecia duas por avistamento: o abibe e a galinha-d'água. A narceja e a galinhola são duas limícolas muito parecidas que julgo nunca ter visto, apesar de, segundo o Aves de Portugal, poderem ser observadas em Portugal durante o inverno.

01-2020-DSC_8422.jpg

Quanto ao abibe, só tenho um avistamento de jeito registado, e não há dúvidas que é uma ave de aspeto distintivo — uma das mais fáceis de identificar da nossa avifauna, segundo o Aves de Portugal. Aquele penacho é inconfundível e faz-me sempre pensar que se trata de uma pincelada acidental num quadro. O artista queria pintar um ponto, só que escorregou o pincel e saiu uma sobrancelha surrealista. A Natureza gostou e correu com a obra.

Não sei quanto tempo Tolstoi levou a terminar de escrever Anna Karénina, se mais ou menos tempo do que aquele que estou a levar a lê-lo, mas está a ser uma experiência curiosa, deixar-me ficar assim para trás numa leitura e demorar-me nas suas paisagens. Há muito para ver e reparar, incluindo as aves!